Da missa de Lutero à missa de Paulo VI.


Padre Joaquim F.B.M.V.


     A revolução teológica de Lutero

     A teologia de Martinho Lutero nasceu de sua angústia. Ao invés de basear sua vida espiritual, em busca de equilíbrio, nos ensinamentos da doutrina sagrada, Lutero faz o contrário: «Ele transforma as suas necessidades em verdades teológicas e o seu estado
pessoal em lei universal da natureza humana»(1). O centro da teologia não é mais Deus - quem Ele é e o que quer de nós – mas é o próprio Lutero procurando a certeza de sua salvação.
     Lutero quer se sentir em estado de Graça. Isto é um erro capital, pois a graça é sobrenatural. Ela é objeto da fé e não pode ordinariamente ser experimentada nem pelos sentidos nem pela inteligência. Haverá sempre, aqui sobre a Terra, o claro-escuro* nas relações entre o homem e Deus: é esta a dificuldade, mas também é esta a grandeza da vida católica.

     O monge agostiniano não entendeu, ou não quis entender, esta tensão purificadora querida por Deus. Procurando uma certeza que não é deste mundo, acabou por infringir as certezas sobrenaturais concedidas a este mundo.

    Conhecem-se as duas etapas do seu declínio:
     - Antes de tudo a desesperação, constatando sua impotência diante ao pecado: ele sobrevalorizou a força do pecado original e as suas consequências.

     - E, a grande inversão: a famosa «experiência da torre» - onde ficavam as latrinas do convento - onde, à meia-noite, ele teve de repente a iluminação da salvação pela sola fide. Unicamente pela fé, porque todas as nossas obras são pecados. Estes podem somente ser recobertos pelos merecimentos de Cristo, de modo a não nos serem imputados: e isto seria o estado de graça. E então, para Lutero, eis enfim a paz, a certeza e a consolação da alma.

     Tudo isto só foi possível ao preço de um transtorno intelectual radical. Lutero conserva as palavras da revelação cristã (fé, graça, salvação, justificação, etc), mas dá a estes um sentido totalmente novo. A fé não é mais a adesão às verdades reveladas, mas uma espécie de confiança cega. A redenção se realiza somente pela ação divina, sem nenhuma participação ou colaboração humana.

     Esta revolução teológica deveria necessariamente chegar até a liturgia, e em particular ao coração da liturgia: o Santo Sacrifício da Missa.
*O chiaroscuro (palavra italiana para «luz e sombra» ou, mais literalmente, «claro-escuro») é uma das estratégias inovadoras da pintura renascentista do século XV.
     Aplicação à teologia da Missa

     Para Lutero, o estado de graça deixa de ser uma realidade na alma para se tornar uma ficção jurídica: a não imputação dos pecados. Ficção esta que foi alcançada por Cristo pela sua Cruz. E aqui há um primeiro rebaixamento do Sacrifício da Cruz: impotente a curar o homem do pecado, este nos obtêm somente o «manto» dos méritos de Jesus Cristo, a fim de cobrir nossas faltas. Mas este manto deve ser conseguido, e esse é o papel da «fé». E esta fé tem como objeto essencial a promessa de Cristo de esconder os nossos pecados aos olhos do Pai. Para se beneficiar disso, basta ter confiança nesta promessa.
     A corrupção do Sacrifício redentor de Cristo leva á corrupção da Missa, que segundo o ensinamento constante da Igreja é a permanência do Sacrifício do Calvário. A dupla consagração do pão e do vinho realiza o Mysterium Fidei: o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Nosso Senhor, imolados sacramentalmente, tornam presente o único Sacrifício da Cruz, aplicando-nos os frutos. Os cristãos não devem estar alheios a este sacrifício, mas são todos chamados a se unirem a ele. Ora, no sistema luterano isto não é mais possível.

     Para Lutero, não há verdadeira remissão dos pecados, mas só a promessa divina de não imputação. Esta promessa foi obtida no momento do Sacrifício de Cristo e basta crer nela para tirar benefício. A única função da Missa é, portanto, a de nos fazer lembrar dessa promessa. A celebração nos ajuda a obter, por meio da fé-confiança, o manto que nos é oferecido.

     Para Lutero, Missa = promessa

     Lutero ensina:
Acredita-se que a missa seja um sacrifício oferecido a Deus. Ora, no curso da última ceia (Jesus) entregou a nós o seu testamento, ou seja, a sua promessa. Ele não o entregou a Seu Pai (2).
     E ainda:

A missa é a promessa que Deus nos fez de redimir nossos pecados. Isto significa que não é o homem o autor da própria salvação, mas é Deus, pela Sua promessa (
3).
     Consequência lógica:

     É um erro evidente e ímpio oferecer ou aplicar a Missa pelos pecados, em satisfação, ou pelos defuntos... A Missa é oferecida por Deus ao homem e não pelo homem a Deus (
4).

     Fundamentalmente, só haveria na  Missa 2 coisas: a promessa divina e a fé humana, esta última recebendo o que a primeira promete.

     Contra o Sacrifício
     Aquilo que era sacramento se torna um simples excitante para a fé. A noção de Sacrifício desaparece. No máximo, Lutero admite um sacrifício em sentido impróprio, o sacrifício da oração e da penitência, mas nunca um sacrifício propiciatório. Comemora-se o Sacrifício da Cruz, mas não se sacrifica, caso contrário teríamos outro sacrifício, que faria concorrência ao sacrifício da Cruz.
O santo Sacrifício da Missa é assim, para Lutero, um sacrilégio e mesmo o pior dos sacrilégios. É alvo de ataques furiosos:
     “O elemento principal do culto deles, a missa, supera toda impiedade e abominação, e eles fazem  disso um sacrifício e uma boa obra. Se não houvesse outros motivos para abandonar a batina, para sair do convento e romper os votos, este somente bastaria amplamente.” (5)

     Uma boa obra! A ira de Lutero subia ao cúmulo, porque seu sistema não podia admitir as boas obras: o homem, inteiramente corrupto, é incapaz de apresentar a Deus uma só ação que possa agradá-Lo; todas devem ser recobertas pelo manto de Cristo. E ao invés disso a Igreja romana pensa somente em multiplicar as Missas:

Os miseráveis padres de missa, com as confrarias que criam para ganhar dinheiro, com as missas que dizem pelos mortos e pelos vivos, só fazem enganar o povo de insensatos e conduzi-los com eles ao inferno, apropriando-se do seu dinheiro e dos seus bens através de suas mentiras. E é lá que se encontram os fundamentos secretos e ocultos de todo o universo. Todos sabem porque foram estabelecidos os bispados, os cabidos, os conventos e todo o reino dos padres: para celebrar a missa, isto é, para a idolatria mais odiosa que existe sobre a terra (6).

     E a Presença Real?

     No início, Lutero atacava mais o caráter sacrificatório da Missa  que a presença de Jesus na Eucaristia. Mas se a Missa não passa de uma promessa, que será de Jesus Cristo, que é uma pessoa e não uma promessa?

     Logicamente, o protestantismo deveria evoluir para a negação total da Presença Real. Calvino reconhece apenas uma presença simbólica. Lutero ainda admite certa presença real, mas variando muitas vezes na explicação desta.
Professa  muitas vezes a doutrina da “empanação” (o Corpo de Cristo no pão consagrado).
Ensina que Cristo está presente durante a cerimônia, mas junto ao pão e ao vinho – que continuam pão e vinho – e unicamente durante a Missa. Autoriza uma elevação em certos casos, para os fracos (7), mas combate decididamente a fé católica na transubstanciação (conversão total da substância do pão e do vinho consagrados, na substância de Jesus Cristo, de tal modo que realmente não há mais nem pão nem vinho, mas somente as suas aparências exteriores).
Escreve:
Na transubstanciação é necessário ver o artifício de uma opinião humana que não encontra apoio nem na escritura nem na razão.

      E, desprezando todos os Padres da Igreja (que mesmo sem empregar exatamente o termo transubstanciação, afirmaram a mesma realidade), Lutero ousa pretender:
Por mais de 1200 anos a própria Igreja professou corretamente a sua fé. Em nenhuma parte os Santos Padres pensaram nesta transubstanciação (termo e sonho extravagantes), até o momento em que  a pseudo-filosofia de Aristóteles pôs-se  a invadir a Igreja (8).

     A missa de Lutero

      Para uma nova religião, uma nova missa. Mas Lutero conserva certo bom senso. Apesar de sua paixão destruidora, procede com precaução, sobretudo evitando  andar muito rápido. Soube aproveitar das experiências e fracassos que seus discípulos tiveram durante o período de sua reclusão no castelo de Wartburg.

     Para agir prudentemente precisa partir da situação existente – uma liturgia católica – e fazer as coisas evoluírem pouco a pouco, evitando escandalizar inutilmente os mais simples. Aqui a prudência se confunde com a dissimulação. Um trabalho de ilusionista lhe permite fazer passar ao protestantismo grupos inteiros, sem que as pessoas se dessem conta disto. Lutero e os chefes dos reformadores aprenderam rápido, quase que como por instinto, a técnica revolucionária que consiste em conservar as aparências esvaziando-as de todo conteúdo (9).

     Em 1526, Lutero compôs a sua Breve exposição da missa e da comunhão, principal instrumento para conduzir a reforma. Eis um resumo deste documento em12 pontos (10):

     1. Será conservado o Introito dos domingos, bem como as festas de Páscoa, Pentecostes e Natal. Mas as festas dos santos serão suprimidas.

     2. Será conservado o canto do Kyrie Eleison e do Gloria, mas com a possibilidade de suprimi-los em certos dias.

     3. A Coleta vem conservada, se o que se pede não contradiz o sistema luterano. A invocação dos  santos é suprimida.

     4. É permitido cantar a Epistola de São Paulo e o Evangelho, mas são suprimidas as sequências e as glosas intermediárias.

     5. Conservar-se-á o canto do Credo, depois do qual se faz a pregação.
    
     6. São suprimidos o Ofertório e o Canon,  que é o elemento principal da reforma e a  principal preocupação de Lutero:

Declaramos em primeiro lugar que nunca foi nossa intenção abolir inteiramente todo o culto de Deus, mas somente a de purgar aquele que é em uso, de todos os acréscimos que o contaminaram: refiro-me a este abominável Canon, que é um acúmulo de lama pantanosa; fez-se da missa um sacrifício; adicionaram-se uns ofertórios. A missa não é um sacrifício ou ação do sacrificador. Vejamo-la como sacramento ou testamento. Chamemo-la bênção, eucaristia ou Mesa do Senhor ,Ceia do Senhor ou Memorial do Senhor. Dê-se a ela outro título qualquer que se deseje, contanto que ela não seja maculada com o nome de sacrifício ou de ação (11).

      7. Depois do Credo, prepara-se o pão e o vinho. Segue-se o diálogo antes do prefácio e se passa diretamente à consagração.

     8. É mantida a elevação do pão e do cálice (por causa dos fracos na fé) enquanto  se canta o Sanctus e o Benedictus.

     9. Recita-se o Pater noster, com a omissão do Libera nos.

     10. O Pax vobis é considerado como uma espécie de absolvição coletiva dos pecados.

     11. A comunhão é dada sob duas espécies, enquanto se canta o Agnus Dei.

     12. A Antífona de comunhão é facultativa; a Postcommunio é suprimida. O Ite missa est é substituído pelo Benedicamus Domino seguido da benção.

     A transformação é radical: não se trata mais do Sacrifício da Missa, mas de uma ceia eucarística que comemora a Ceia do Senhor.
     Todavia, aos olhos dos fiéis, as mudanças são mínimas, porque os ritos mais visíveis são mantidos, assim como os cantos. Lutero insiste muito nos cantos, que contribuem para dar a sensação de alegria e pacificação da consciência. Ao mesmo tempo, adota a língua vulgar. Mas não quer acelerar as coisas, sabe dissimular os seus objetivos e não hesita em minimizar a sua iniciativa. A propósito da sua Breve exposição da missa e da comunhão, ele escreve, melífluo e enganador:
Antes de tudo, suplico amigavelmente […] todos aqueles que quiserem examinar ou seguir o presente ordenamento do serviço divino, a não vê-lo como uma lei compulsória e a não se deixar cativar a própria consciência. Que cada um o adote quando, onde e como quiser. Assim quer a liberdade cristã (12).

     O Concílio de Trento

     As novidades  protestantes serão solenemente condenadas no Concílio de Trento. A doutrina do Santo Sacrifício da Missa é definida na XXII sessão, em 1562:
E como neste divino sacrifício, que se realiza na missa, se encerra e é imolado de modo incruento o próprio Cristo, que se ofereceu de  uma vez por todas de modo cruento no altar da cruz, o santo Concílio ensina que este sacrifício é verdadeiramente propiciatório, e que por meio dele, se com coração sincero e verdadeira  fé, com temor e respeito, contritos e arrependidos nos achegarmos a Deus, conseguiremos misericórdia e acharemos graça no auxílio oportuno. Porquanto, aplacado o Senhor com a oblação dele e concedendo o dom da graça e da penitência, perdoa os maiores delitos e pecados. Pois uma e mesma é a vítima: e aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que, outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo, apenas, o modo de oferecer. Os frutos da oblação cruenta se recebem abundantemente por meio dessa oblação incruenta, nem tampouco esta derroga aquela. Por isso, com razão se oferece, consoante a Tradição apostólica, este sacrifício incruento, não somente pelos pecados, pelas penas, pelas satisfações e por outras necessidades dos fiéis vivos, mas também pelos que morreram em Cristo, e que não estão plenamente purificados [DS 1743].

     Para bem manifestar o caráter obrigatório, e portanto infalível, deste ensinamento, os canones anatematizam os que o recusam:

Can. 1 – Se alguém disser que na missa não se oferece a Deus um verdadeiro  e próprio sacrifício, ou que oferecer-se Cristo não é mais que dar-se-nos em alimento: seja anátema [DS 1751].

Can. 3 -  Se alguém disser que o sacrifício da missa é somente um sacrifício de louvor e de ação de graças ou uma simples comemoração do sacrifício oferecido na cruz, e não um sacrifício propiciatório; ou que só aproveita ao que comunga, e que se não deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades: seja anátema. [DS 1753].

     E para proteger a tradição litúrgica contra os hereges, Pio V restaura, codifica e impõem o rito romano da santa Missa. A sua bula Quo primum opõe aos desvios uma barreira que parece intransponível.

     Da ceia protestante à missa ecumênica

     Todavia, quatro séculos depois, a missa de Lutero inegavelmente influenciou os autores da nova missa, chamada de «missa de Paulo VI».
O Pe. Annibale Bugnini, principal executor da reforma litúrgica, claramente confessou que esta foi feita:
para facilitar aos nossos irmãos separados o caminho da união, descartando toda pedra que pudesse constituir nem que fosse uma sombra de risco de se tornar uma pedra de tropeço ou um motivo de descontentamento(13).

     O próprio Paulo VI confiou ao seu amigo, o escritor Jean Guitton, que  sua intenção de mudar a Missa vinha do desejo de aproximação com os protestantes. Guitton testemunha:
A intenção de Paulo VI sobre o que é comumente chamada a Missa, era a de reformar a liturgia católica de tal modo que pudesse quase coincidir com a liturgia protestante. Tinha Paulo VI a intenção ecumênica de tirar, ou ao menos de corrigir, ou pelo menos de enfraquecer, aquilo que era por demais católico em sentido tradicional na Missa e, repito, aproximar a missa católica da missa calvinista (14).

     Tomar-se-ia o caminho litúrgico já percorrido pelos protestantes, mas com outra intenção: não mais herética (rejeição da doutrina católica da Missa), mas ecumênica: favorecer a unidade dos cristãos. Todavia, a intenção, por mais que pareça tranquilizadora, não muda nada na destinação de tal caminho.



     Não somente os inovadores retomaram o caminho de Lutero, mas eles também chamaram seus herdeiros para colaborar na confecção da nova missa: é conhecida a célebre fotografia na qual Paulo VI está com os pastores protestantes: George, Jasper, Shephard, Konneth, Smith e Max Thurian, convidados a auxiliar nos trabalhos da comissão que preparavam a nova liturgia.

      Em 3 de abril de 1969, o Papa Paulo VI assinava a constituição apostólica Missale Romanum, promulgando o Missal Romano renovado por ordem do concilio ecumênico Vaticano II. O objetivo ecumênico foi alcançado, já que numerosos protestantes declararam poder celebrar a santa Ceia com as mesmas orações da Igreja católica: «Teologicamente, é possível», afirmou Max Thurian, da comunidade de Taizé (15).

      Em 19 de  novembro de  1969, em uma alocução, Paulo VI reconhecia que a introdução do novo rito era «algo surpreendente, extraordinário, pois a  Missa é considerada como a expressão tradicional e intangível de nosso culto religioso, da autenticidade da nossa fé
Mas pedia: «que se compreendesse que nada mudou na substância de nossa Missa tradicional», e concluía: «Não devemos falar de nova Missa, mas de nova época na vida da Igreja» (16).
Os católicos que queriam se tranquilizar, o conseguiram. Todavia, no jornal La Croix de 10 dezembro 1969, Jean Guitton diz ter lido em «uma das mais importantes revistas protestantes» a seguinte afirmação: «As novas orações eucarísticas católicas abandonaram a falsa perspectiva de um sacrifício oferecido a Deus»; enquanto que o  prior de Taizé declarava:
De minha parte, tenho certeza que no novo Ordo Missae a substância da missa é a mesma que aquela que foi vivida e rezada antes. Paulo VI nos dá a mesma confirmação. Mas aquilo que cria problemas para o católico normal é isto: como é possível que as mudanças da Missa possam ser secundárias para os católicos e ao mesmo tempo essenciais para os protestantes? O Papa nos disse que a nova missa é a Missa de sempre, simplesmente liberada de adições supérfluas, herança dos séculos passados. E esta é também a opinião dos estudiosos beneditinos, aliás considerados integristas (17).

      De fato, a nova liturgia não suprimiu aquele mínimo requerido para a validade da Missa: a dupla consagração. Portanto, querendo, se pode achar aí a substância da Missa católica. Mas estes «estudiosos beneditinos, considerados integristas» (é necessário pouco para sê-lo, sobretudo aos olhos dos protestantes), tiveram o trabalho de comparar a nova missa com a de Lutero? Compararam com a missa do anglicano Cranmer (18)? Teriam constatado as surpreendentes semelhanças que vão sempre na mesma direção:

- eliminação de tudo o que exprime claramente a natureza de sacrifício da Missa (e sobretudo o seu caráter propiciatório);
- eliminação de tudo o que lembra mais claramente a distinção essencial entre o sacerdote (que oferece o sacrifício enquanto ministro de Cristo), e os fiéis que se unem ao sacrifício;
- Enfim, enfraquecimento de tudo o que põe em relevo a transubstanciação operada nas duas consagrações.

      A missa de Paulo VI não é claramente protestante, mas ela é despojada de tudo o que protegia a significação católica do rito. Ela é ambígua. Ao invés de querer a todo custo interpretá-la de maneira católica, os «estudiosos beneditinos, considerados integristas» deveriam lembrar que se tratam de ambiguidades análogas às que, no século XVI, fizeram cair na heresia os fiéis da Alemanha, Suécia, Dinamarca, Noruega, Inglaterra, etc.

     Comparação dos ritos

     Muitos trabalhos, mais ou menos detalhados, analisaram os problemas suscitados pela nova liturgia (19). Assinalaremos aqui apenas alguns elementos que aproximam a nova missa da ceia protestante:

1) Abolição da antiga orientação do altar, que frequentemente se torna apenas uma simples mesa (em contradição com a encíclica Mediator Dei).
2) Supressão do duplo Confiteor, que distinguia claramente o sacerdote, ministro de Cristo, e os fiéis.
3) Supressão de várias orações que mostravam o caráter propiciatório do Sacrifício: Aufer a nobis, Offerimus tibi, etc.
4) Nova organização das leituras, subordinando o aspecto litúrgico ao aspecto catequético.
5) Supressão do Offertorio.
Em lugar da oração tradicional:
Recebei, santo Pai, Deus onipotente e eterno, esta hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, vos ofereço, ó meu Deus, por meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências, por todos os presentes, e por todos os fiéis cristãos, vivos e defuntos, a fim de que a mim e a eles este sacrifício aproveite para a salvação na vida eterna. Amém.
Tem-se hoje uma oração hebraica para a benção da mesa, que elimina as idéias de sacrifício e  propiciação:
Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem, que agora vos apresentamos, e para nós se vai tornar pão da vida.  

6) Multiplicação das «orações eucarísticas», em lugar do venerável Canon romano que Lutero odiava e que o Concílio de Trento elogiava: ver DS 1745 e 1756.

7) Recitação da “oração eucarística»’ em alta voz (contra a prescrição do Concílio de Trento:
«Se alguém disser que o rito da Igreja romana, segundo o qual uma  parte do Canon e as palavras da Consagração se pronunciam em voz baixa, deve ser condenado; ou que a Missa deve ser celebrada somente na língua vulgar; […] seja anátema» (DS 1759).

8) Supressão da distinção entre o modo narrativo e o modo intimativo nas fórmulas da consagração, etc.

     Basta comparar o novus Ordo de Paulo VI à «Breve exposição» de Lutero ou às insinuantes reformas do anglicano Cranmer (20), para que se fique impressionado com a semelhança dos procedimentos.

     A diferença

     Todavia, entre a revolução litúrgica do século XVI e a do século XX, a situação não é idêntica. A missa de Lutero foi concebida para permitir aos ministros «reformados» trocar com discrição a  religião do povo ingênuo. A missa nova de Paulo VI, mais matizada, é voltada antes de tudo aos ministros, para mudar pouco a pouco a fé e a intenção deles na celebração das missas. Este processo mais sutil não teria sucesso num contexto de aberta revolta contra a autoridade de Roma, como aconteceu no protestantismo, mas sim no contexto do processo revolucionário interno da Igreja pós-conciliar, pois ele foi encorajado pela própria autoridade de Roma, ocupada  pelos modernistas.

     No que diz respeito às consequências, encontram-se ainda importantes diferenças: no protestantismo se  verificou um fracionamento puro e simples, que gerou confissões e autoridades sem número; no catolicismo se verificou uma desorientação doutrinal sem precedentes e um grande espírito de independência, porém isto sem abolir a autoridade romana, a qual verdadeiramente não se exerce, já que ela substituiu o ensinamento dogmático pelo diálogo; mas esta ainda permanece oficialmente, como que para garantir a suposta legitimidade do processo. (21).

     Para concluir, citemos o bem conhecido, mas sempre impressionante juízo dos cardinais Ottaviani e Bacci:
«… o Novus Ordo Missæ, se considerarmos os elementos novos, suscetíveis de apreciações diferentes, que ali aparecem subentendidos ou implicados, se afasta de  um modo impressionante, seja no conjunto como nos detalhes, da teologia católica da Santa Missa, tal como foi  formulada na Sessão XXII do Concílio Tridentino, o qual, fixando definitivamente os «canones» do rito, elevou uma barreira intransponível contra qualquer heresia que tentasse atingir a integridade do Mistério» (22).

     Não é por acaso que estes grandes homens da Igreja enfatizaram a oposição entre a nova missa e os ensinamentos do Concílio de Trento, que condenou Lutero. Os decretos tridentinos atingem em conjunto e de um só golpe tanto a missa de Lutero como a missa de Paulo  VI. Uma e outra devem ser fortemente rejeitadas, enquanto derivadas da mesma fonte envenenada. À maneira protestante ou à maneira modernista, a subversão anti-católica produziu a mesma mudança radical do eixo religioso: Deus substituído pelo gênero humano (23). Por um ou por outro modo, ela progride com as mesmas ambiguidades calculadas e com os mesmos deslizamentos sucessivos.

     Compreende-se, portanto, porque Mons. Lefebvre recomendou manter cuidadosamente distância da Igreja conciliar.







NOTAS

1 – Jacques Maritain, Trois Réformateurs [Lutero, Descartes e Rousseau], Paris, Plon, 1925, p. 14.
2 – Citação tirada da obra de Lutero: De la captivité Babylonienne de l’Église, in Oeuvres completes de Luther, t. 2, ed. Labor et fides, p. 178 ss.
3De la captivité Balylonienne de l’Église, ed. Labor et fides, ibid.
4 – Citado por Léon Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910, p. 176.
5 - Citado por Léon Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910, p. 258.
6 – Cfr. Luther, Werke, t. III, pp. 522 ss.
7 - Veja-se Bossuet, Histoire des variations des Églises protestantes.
8 – Citação tirada da obra de Lutero: De la captivité Babylonienne de l’Église, in Oeuvres complètes de Luther, t. 2, ed. Labor et fides, p. 178 ss.
9 – Sobre estes procedimentos enganadores veja-se Jacques Maritain, Trois Réformateurs, Paris, Plon, 1925, pp. 246-247 (nota 10).
10 – Nós nos apoiamos em Ricardo Villoslada, Martin Lutero, Madrid, BAC, 1976, t. II, pp. 98-99.
11 – Lutero (Werke, t. XI, p. 774).
12 – Cristiani, ibid, p. 314.
13 – Annibale Bugnini, DC n. 1445 (1965), col. 604.
14 – Jean Guitton, no debate organizado em Lumière 101, jornal do domingo de Radio Courtoisie, 19 dezembro 1993, a respeito do livro de Yves Chiron, Paul VI, le pape ècartelé.
15 – Ver o jornal La Croix, de 30 maio 1969.
16 - Audiência geral de 19 novembro 1969 - http://w2.vatican.va/content/paul-vi/it/audiences/1969/
17 - Relatado por Louis Salleron em La Nouvelle messe, Paris, NEL, 1976, p. 122.
18 – Veja em Michael Davies, La riforma liturgica anglicana, traduzida por Radicati nella Fede - http://radicatinellafede.blogspot.it/p/la-riforma-liturgica-angicana-pdf.html
19 - Veja o cap. 7 - «La nuova messa» - do Catechismo della crisi nella Chiesa, de Don Matthias Gaudron, ed. Ichthys, Albano Laziale.
20 – O primeiro Prayer Book anglicano (1549) suspendeu o ofertório, modificou o canon e adotou a versão luterana da história da instituição: passou em silêncio o sacrifício propiciatório, mas não o negou explicitamente. Foi uma primeira etapa. Quando o livro foi aceito em toda parte, veio então um segundo Prayer Book, claramente mais protestante. Veja-se Michael Davies, La riforma liturgica anglicana, cit.
21 – Entendemos assim a grande sutileza, mas também a grande malícia do processo que vivemos atualmente, bem definido por Mons. Lefebvre como «O golpe de mestre de Satanás»: a introdução dos princípios revolucionários na Igreja católica pela autoridade da Igreja.
23 – Denifle já tinha percebido que em Lutero, «o culto de Deus se transforma inteiramente em um culto do homem”. Em relação a Deus, o homem não existe; não pode prestar a Ele nenhum culto, e Deus não lhe pede nem obras, nem dons; o homem só pode ter algum valor ou desenvolver alguma atividade em relação ao seu próximo, no máximo pensando um pouco em Deus (Citado por Jacques Maritain, Trois Réformateurs, p. 255, nota 20).



Terminado de traduzir por Marcello A. Tonidàndel Orciuoli em 11 de Novembro de 2017 dia de São Martinho de Tours +AMDG+

Quarta-feira de Cinzas e Via-Sacra.






     Nesse dia, a Santa Missa será celebrada às 8:00 hs da manhã, precedida pela benção e imposição das cinzas. Na sexta-feira seguinte haverá Via-Sacra, a partir das 16:00 hs, e assim será durante toda a Quaresma.

Análise do artigo de Olavo de Carvalho publicado na revista Verbum, números 1 e 2, julho e novembro de 2016.

 1.      O que o autor diz.


    O autor é bastante descritivo, e por vêzes intercala o pensamento de outros autores com o seu, de modo que nem sempre é fácil discernir se está de acordo ou não. Sendo assim, procuraremos ser descritivos e literais nessa primeira parte para que, ao procedermos à crítica na segunda parte, só atribuirmos a ele o que realmente exprimiu como seu.
     O professor Olavo de Carvalho começa se alinhando com a distinção entre os dois universalismos, considerados high e low brow:

     “O esclarecimento é este: Não se deve confundir o “universalismo” paródico da Nova Era e da URI com o universalismo high brow da escola dita ‘tradicionalista” ou “perenialista” inspirada em René Guénon, Frithjof Schuon, Ananda K. Coomaraswamy e seus continuadores.
     É verdade. São muito diferentes.” (Parte 1, pág. 33)

     Note-se que o próprio autor insiste que a diferença é profunda, diferença entre um “pastiche de sincretismos” e, de outro lado “(...) construções intelectuais sofisticadas, uma compreensão profunda e organizada dos símbolos religiosos e esotéricos de todas as tradições, um domínio cabal das fontes reveladas [?!] e uma técnica comparatista que se aproxima, em precisão, quase que de uma ciência exata” (parte 1, pág.34).
     E quando examinamos os efeitos do conhecimento desta diferença a nível do sujeito individual, vemos que eles ultrapassam muito o de uma mera satisfação intelectual pelo conhecimento natural de Deus:

     “(...) a passagem ao tradicionalismo de Guénon e Schuon é um upgrade intelectual formidável (...)” (parte 1, pág. 35). E segue citando um biógrafo de Guénon, sem desaprová-lo:

     “Chegará o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajudá-lo em sua resistência interior, terá de encontrar em si mesmo, e só nele mesmo, o meio de aderir firmemente, pelo centro de sua existência, ao Senhor de toda Verdade” (Idem)

     E continua o autor, indicando o aumento de autoridade desse universalismo, resultante de sua ligação com revelações imemoriais remontantes à Tradição Primordial. Tudo isto leva à constatação da “convergência essencial das doutrinas e símbolos das grandes tradições religiosas e espirituais (...)” (idem).

     Prossegue estabelecendo 3 pontos de diferenciação entre o falso universalismo e os ensinamentos perenialistas:

1.      Integridade das tradições: no verdadeiro universalismo ensinado pelos perenialistas, que se opõe a qualquer sincretismo, embora apontem para uma mesma Realidade suprema.
2.       Seleção de materiais: onde se separa o verdadeiro do contrafeito, sendo a ligação com a fonte primordial o critério. Falta este critério no falso universalismo.
3.      O mais importante: a transcendência, e não imanência desta unidade. A convergência se faz pelo que o autor chama “concepções metafísicas”. Ele concorda com isto, mas utiliza o condicional para falar da relação entre os exoterismos e o esoterismo primordial que une.
    
     E esta linguagem menos clara nos remete ao último parágrafo da parte I: “Mas é aí que começam os problemas”.
     A parte II então aborda a questão problemática da diferenciação entre esoterismo e exoterismo: é a diferenciação vertical dentro de cada tradição (as quais exprimem a diferenciação horizontal). Questão importante para a tese da unidade transcendental das religiões. O “topo” tem que ser comum, superior e ponto de encontro das tradições, mas como estas não podem fundir-se (como no ocultismo vulgar sincretista), essa unidade deve ultrapassar o nível inferior e temporal, historicamente condicionado.
     Porém, explicitamente, somente o Islamismo apresenta tal distinção. E o autor passa em revista outras tradições, a hinduísta, a cristã e a judaica, e defende que a aplicação dessa distinção só pode ser sugestiva ou analógica. “Com isso o edifício inteiro do “perenialismo” começa a balançar um pouco” (Parte 1, pág. 38).
     Merecem menção as dificuldades de aplicação apresentadas com relação ao cristianismo: a ausência de organizações esotéricas nos primeiros séculos da Igreja, a oposição taxativa do Fundador, o caráter iniciático dos sacramentos. E sobre esta última dificuldade, considerada a mais importante, o autor faz uma declaração que deve reter nossa atenção: “Todos os cristãos que receberam os sacramentos são, portanto, iniciados, no sentido estrito que o perenialismo dá a essa palavra.” (parte 1, pág. 39).
     O autor questiona o porque dessa insistência de Guénon em fazer esta problemática aplicação, “Mas antes mesmo de esclarecer esse ponto é preciso levantar uma outra questão” (parte 1, pág. 41)
     Trata-se da questão do que é a Metafísica, cujos princípios são o ponto, inquestionável para o autor, de convergência das “tradições materialmente diferentes”.
     O termo é usado como nos autores mais citados do artigo, Guénon e Schuon:

     “Que é uma metafísica? É a estrutura da realidade universal, que desce desde o Primeiro Princípio infinito e eterno até os seus inúmeros reflexos no mundo manifestado, através de uma série de níveis ou planos de existência” (parte 1, pág. 41)

     Aí encontramos unidade nas tradições, o que nos mostra “uma percepção normal da estrutura básica da realidade” (Idem, o itálico é do autor), da parte de todos os homens. E esta estrutura é escalar, trata-se de diferentes planos ou níveis de realidade, do sensível ao divino (Realidade última). Tal metafísica é condição necessária da vida religiosa e da realização espiritual. “Tudo isto está muito bem” (parte 1, pág. 42), concorda o autor, que busca em seguida assinalar a dificuldade de que uma metafísica comum a várias tradições seja a perfeição de cada uma delas. Não é possível, já que a perfeição pertence à espécie não ao gênero. Para resolver a dificuldade, defende que:

     “(...) a Tradição Primordial é a base comum não só a todas as tradições espirituais, mas a todas as culturas e, no fim das contas, ao núcleo de inteligência sã presente em todos os seres humanos. Partindo dessa base, ou origem, as várias tradições se desenvolvem em direções diferentes, cada uma procurando refletir mais perfeitamente o Princípio absoluto e dar aos homens os meios de retornar a Ele. Nesse sentido, a culminação não é o Princípio em si, mas o sucesso que obtém na operação de retorno” (parte 1, pág. 43).

     A consequência é uma diferenciação de grau de sucesso entre as várias tradições, pois elas representarão diferentemente a Tradição Primordial. Mas todas remetem a ela, isto é “OK” para o autor.
     Na parte IV o autor volta a ocupar-se então da questão do esoterismo e exoterismo. Falou-se na distinção vertical exoterismo-esoterismo em cada tradição religiosa, Examina-se agora a possibilidade, em cada tradição, de filiar-se a alguma organização esotérica. Novamente, não há problemas para o islamismo. Também o hinduísmo, receptivo em relação a outras religiões, não oferece maiores problemas. Mas o autor percebe grandes dificuldades quando se trata do catolicismo. E aqui ele se opõe mais frontalmente ao projeto guenoniano. Primeiro, mostrando o beco sem saída que seria para um católico aderir à maçonaria, considerada por Guénon uma organização iniciática cristã: mas ela é excomungada, assinala com razão o autor.
     A partir dos anos 60, perenialistas sugeriram 3 saídas: conversão ao islam, à ortodoxia, e a terceira, considerada mais fácil e natural, entrada na tariqa multiconfessional de Schuon. Esta última alternativa correspondia ao projeto de Guénon.
     E na parte V o autor mostra as 3 respostas, reduzidas por ele a 2, que dá Guénon para o desenrolar da crise de degradação espiritual do Ocidente: “ou o mergulho na barbárie ou a sujeição ao islam, seja discreta ou ostensiva.” (parte 2, pág. 35).
     Esta aplicação forçada do binômio exoterismo-esoterismo, e o diagnóstico e soluções propostas para a crise da cristandade, leva o autor a discernir como objetivo central da obra de Guénon, a islamização do Ocidente. O desprezo pela política por parte de Guénon (que buscava a autoridade espiritual), e o impacto de sua obra sobre seus discípulos, dificultou ou mesmo impediu que o público discernisse essa intenção em Guénon. E o autor adverte contra esse projeto, mas reafirma o valor dos ensinamentos de Guénon, como que aprovando o diagnóstico da realidade, ainda que tendo reservas quanto ao remédio proposto.

2.      Crítica.

     Procuramos reproduzir com fidelidade o pensamento do autor, separando-o do pensamento dos seus mestres, sobretudo Guénon e Schuon, aos quais ele segue, mas também quer corrigir. O título do artigo, e sobretudo a segunda parte deste dá a impressão de alguém que quer escapar às “garras da esfinge”. Mas vemos no final do mesmo que a condição de escape é a decifração do enigma guenoniano, onde se separa aquilo que é útil do que é danoso. É danoso o projeto de islamização do Ocidente. Mas é proveitoso e fortalecedor, por exemplo, a tese da unidade transcendente das tradições religiosas, bem como esta “metafísica”  que nos eleva acima do sentimento religioso, sendo indistintamente condição de vida e realização para todas as tradições religiosas que, embora diferentes e atingindo um grau diferenciado de perfeição (opinião própria do autor que parece ir de encontro ao “ecumenismo” dos mestres), dependem todas de uma única tradição primordial, a cuja ligação devem sua própria existência e, adendo do autor do artigo, seu próprio grau de excelência.
     Mas todo esse edifício cai por terra quando nos damos conta de que não estamos, principalmente, diante de um enigma que se tenta decifrar. Enigma há, mas o que sobressai em todas essas descrições e raciocínios, é a sua radical oposição à verdade revelada pelo Deus Único e confiada à sua Igreja. Pois a doutrina de René Guénon não passa de uma perversão gnóstica do universalismo cristão (catolicismo, etimologicamente, significa universalismo), que devemos rejeitar em bloco sob pena de tornarmo-nos cúmplices da mesma perversão, e o artigo em questão o mostra.
     A fim de pôr à luz esta perversão, a melhor maneira é a de contrapor a doutrina perene da Igreja frente às elocubrações expostas. Da comparação se poderá inferir incompatibilidades suficientes para nos fazer rejeitar tais posições, sejam as mais radicais e tendenciosas de Guénon, sejam as mitigadas, mas também mais insinuantes, do autor do artigo. Concentraremos nossa atenção em dois temas principais: a chamada tradição primordial, considerada mãe de todas as tradições, e essa metafísica que faria o homem superar-se a si próprio.

     Tradição Primordial única?

     Toda a teoria perenialista repousa sobre a unicidade da tradição primordial. O autor, como citamos, a considera “(...) base comum não só a todas as tradições espirituais, mas a todas as culturas(...)”. Ora, a verdade é que houve, sim, uma tradição primordial única, mas esta se limitou à transmissão do Criador a nossos primeiros pais. Logo interveio aquilo que não pode ser ignorado por nenhum católico com um mínimo de conhecimento de sua fé: o pecado original.

     “Subitamente abriram-se-lhes os olhos e ambos perceberam que estavam nus; por isso entrelaçaram folhas de figueira e fizeram cinturões para si. Depois ouviram o ruído do Senhor Deus que passeava pelo jardim, à brisa do dia; então Adão e sua companheira esconderam-se da vista do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.” (Gen., III, 7-8).

     Nossos pais já não eram os mesmos, e a humanidade que sairia deles já não seria como o plano inicial do Bom Deus estabelecera. Pois fora rompido o laço sobrenatural que os unia a Deus. Despojados no sobrenatural e feridos no natural, como diz Santo Agostinho, impossível para eles e seus descendentes, em conjunto, ser integralmente fiéis à transmissão primordial, cujo autor traíram a confiança.
     Felizmente, a misericórdia de Deus se manifestou naquele momento, e o primeiro livro da Escritura, tão fundamental para o conhecimento de nossas origens, narra aquela promessa que ficou conhecida como Proto-Evangelho:

     “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; esta te esmagará a cabeça enquanto tu te lanças contra o seu calcanhar.” (Gen., III, 15).

     Eis a humanidade dividida mesmo antes que se expanda fisicamente. E é vontade do Criador, já que houve pecado. Toda a história humana será marcada por essa inimizade sem conciliação possível. O Adversário assassinara a vida sobrenatural do gênero humano, tendo antes enganado nossos pais com um falso ensinamento que era uma falsa promessa:

     “(...) Não, não morrereis. Antes, Deus sabe que quando dele comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” (Gen., III, 4-5).”

     O homem cedeu à tentação, desobedecendo em vista de obter um conhecimento que Deus reservara a Si. E o Tentador continuará a transmitir seus falsos ensinamentos e promessas, e a congregar aqueles que se lhe vão aderir no correr dos séculos. Uma tradição se constituirá, ostentando quase a mesma antiguidade da verdadeira tradição e procurará superá-la continuamente, o que será em vão, mas poderá dar a impressão de que a superou em períodos críticos da história.
     Esta separação irreversível destrói a hipótese de uma tradição primordial forjadora de tradições religiosas particulares. Durante a história ver-se-á o embate entre 2 tradições, uma divina, homogênea, progressiva até a revelação do Verbo Encarnado, finalidade desta, e a outra humano-diabólica, que será heterogênea, parasita e, muito importante, tendendo ao sincretismo. A maior vitória para esta última seria o de integrar a verdadeira tradição no seu sistema, fazendo-a vassala de suas concepções e ideais.
     Já no mesmo livro do Gênesis, no capítulo seguinte, essa separação se nos revela de modo brutal no episódio do fratricídio de Abel: primeiro, se nos deparam dois cultos (já não há unicidade!), e o respectivo agrado e desagrado de Deus por um e outro. Já no começo a vontade de Deus é o critério, não a antiguidade, ambos os cultos aparecem ao mesmo tempo, mas só um deles é bom[1].
     Outro momento crítico da história onde essas 2 tradições se nos mostram contrárias é nos tempos do Dilúvio. Narra a Escritura que:

     “Deus olhou para a terra e viu que estava depravada, porque todo mortal corrompera sua conduta sobre a terra.”(Gen., VI, 12).

     Como resultado, Deus decretou a destruição quase completa da humanidade, como modo de sanar a corrupção dominadora. O patriarca Noé aparece como um representante quase isolado da verdadeira tradição no meio da corrupção universal. A humanidade é assim renovada e a tradição divina, salva.
     Outro episódio que merece nossa consideração é o da Torre de Babel. Foi mais um momento onde a falsa tradição humano-diabólica prevaleceu sobre a tradição divina, e com um agravante. Vejamos a Escritura:

     “(...) “Mãos à obra! Construamos uma cidade e uma torre cujo cimo chegue até ao céu, e nos faremos um monumento, para não nos dispersarmos sobre a face de toda a terra”. Desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens haviam construído; e disse “Eis! São todos um só povo e uma só língua, e esta é a primeira empresa que realizam; doravante não lhes será difícil fazer tudo o que lhes vier à mente. Vamos! Desçamos e confundamos ali sua língua; de sorte que não se entendam um ao outro” (Gen., XI, 4-7).

     Os homens estavam unidos, querem glorificar seu próprio nome e garantir sua união, e sua construção comum, fruto dos seus esforços, deve atingir o céu. Não se fala de Deus, trata-se de um empreendimento de uma humanidade associada, que confia em suas próprias forças para atingir algo de sublime.
     E Deus os dispersou. Porque? Era um momento crítico em que a tradição heterogênea não somente prevalecia sobre a divina, mas, e eis o agravante, tendia a se unificar, o que aumentaria consideravelmente suas forças e a tornaria ainda mais ameaçadora à tradição divina. A permissão divina para este terrível fenômeno estava reservada para os últimos tempos, quando o Anticristo arrematará seu poder unindo todas as suas forças contra a Igreja de Cristo.[2]
     Tendo sido novamente salva, a tradição divina recebeu, séculos depois uma nova e poderosa proteção quando Abraão foi chamado para ser princípio de um novo povo que, este, seria o povo de Deus no meio das nações idólatras. Estabelecia-se assim uma clara linha de demarcação entre a religião verdadeira e a multidão de religiões falsas, sendo a primeira constituída herdeira provisória da tradição divina, a qual deveria ali se fortalecer, em vista do futuro cumprimento das promessas messiânicas.
     A Encarnação do Verbo, sua vida, morte e ressurreição, e a fundação da Igreja Católica, marcam a plenitude da Revelação, clara e definitivamente demarcada da variada mas improfícua proliferação de religiões antes ou depois desta. Pois Nosso Senhor disse sem rodeios: “Aquele que não está comigo, está contra mim”. Note-se que a Igreja não é só depositária da Revelação, mas também, por seu Magistério tradicional, intérprete da mesma, o que inclui mesmo o poder, que de fato exerceu, de determinar o Canon das Escrituras, discernindo assim, mesmo no passado, o que é inspirado e isento de erros. De fato, nada lhe falta, sua realidade mais profunda é a de continuar Jesus Cristo na terra. Só a malícia dos seus membros que não correspondem à abundância de recursos sobrenaturais postos à sua disposição, bem como a raiva de seus inimigos, podem fazê-la parecer desfigurada, sobretudo numa época de apostasia como a nossa. Querer inserí-la numa espécie de competição com outras religiões, cujo critério de valor será o da conformidade com uma tradição primordial que lhe antecede e da qual ela depende, assim como todas as outras religiões, eis um acinte que deveria provocar a rejeição indignada de qualquer católico que conheça um pouco a dignidade e singularidade de sua religião, e da Tradição que ela guarda.


     “Metafísica” ou vida sobrenatural?


     A mesma tentativa de inserção redutora num conjunto mais amplo se observa com a noção de metafísica.
     Como dissemos, o autor afasta a possibilidade de tratar a metafísica como disciplina acadêmica. Não é o caso daquele que estuda essa parte principal da filosofia, chegando assim ao conhecimento racional da existência de Deus, de seus atributos, etc., e com isto desfruta de  certa satisfação natural pelo conhecimento alcançado. Não, aqui se trata de uma “estrutura da realidade universal" cuja percepção exige consciência ou pressentimento dos diferentes níveis de realidade, indo do sensível até à última Realidade, portanto ao divino. A isto a subjetividade humana deve perfeita submissão, como condição “da vida religiosa e, mais ainda, da realização espiritual” (parte 1, pág. 42).
     Em nenhum momento se fala de noções fundamentais como vida sobrenatural, graça santificante, pecado, etc.. Mas o único conhecimento que supera o obtido pela luz da razão é o que se obtêm pela Fé, virtude sobrenatural basilar “início, fundamento e raiz da justificação”, como diz o Concílio de Trento. E esta virtude recebemos com o batismo, que nos infunde a vida sobrenatural, a qual foi perdida por nossos primeiros pais.
     Novamente, a questão do pecado original é decisiva. Uma ruptura se produziu nos primórdios, e daí em diante todos estavam dependentes da promessa de um Redentor, que nos devolveria a graça santificante. E esta graça é uma participação da vida divina. É muito mais que um conhecimento, e não pode ser absolutamente conseguida por nosso esforço, nem mesmo pelo esforço de submissão de nossa subjetividade, já que é de uma outra ordem. Sua concessão inicial no Paraíso terrestre foi dom absolutamente gratuito. Sua reconquista no Calvário, obra igualmente gratuita, mas também de uma incompreensível misericórdia. Sem ela é impossível qualquer conhecimento que ultrapasse o conhecimento natural, mais ainda é impossível qualquer “realização espiritual” genuína.
     Se nos voltamos para o mestre de Olavo de Carvalho, quando ele fala dessa “metafísica”, sua descrição é altamente inquietante, mas também reveladora. Citemos, por exemplo, alguns trechos de sua conferência sobre a metafísica oriental, proferida em 1925 na Sorbonne. Diz ele entre outras coisas:


“(...)a metafísica pura, situando-se, por essência, acima e além de todas as formas e todas as contingências, não é nem oriental nem ocidental: é universal. Somente as formas exteriores — com as quais ela se reveste para atender às necessidades de exposição, para exprimir o quanto, nela, seja exprimível — somente tais formas é que podem ser orientais ou ocidentais; mas, sob a diversidade delas, é um fundo idêntico que se reencontra por toda a parte e sempre, ao menos, onde haja metafísica verdadeira, e isto pela simples razão de que a Verdade é uma e única.”

     “Tomaríamos, então, "metafísica" como sinônimo de "sobrenatural"? Aceitaríamos de bom grado tal assimilação, de vez que, enquanto não ultrapassamos a natureza, isto é, o mundo manifesto em toda a sua extensão (e não apenas o mundo sensível, que não é, dele, senão um elemento infinitesimal), estamos ainda no domínio da física; o que é metafísico, como dissemos, é aquilo que está além e acima da natureza, é portanto, propriamente o "sobrenatural".
     Mas, sem dúvida, farão aqui uma objeção: será possível ultrapassar assim a natureza? Não hesitaremos em responder de maneira bastante nítida: não somente isso é possível, mas isso é.”

     “Existe, aliás, com toda certeza, alguma coisa de incomunicável; ninguém pode atingir realmente um conhecimento qualquer senão através de um esforço estritamente pessoal, e tudo o que um outro pode fazer é mostrar-lhe a ocasião e os meios de lá chegar. Eis porque, na ordem puramente intelectual, seria vão pretender impor qualquer convicção; a melhor argumentação não poderia, no caso, substituir o conhecimento direto e efetivo.”

     “Agora: pode-se definir a metafísica, tal como a entendemos? Não, porque definir é sempre limitar, e aquilo de que se trata é, em si, verdadeiramente e absolutamente ilimitado, portanto não poderia deixar-se encerrar em nenhuma fórmula e em nenhum sistema.”

     Desnecessário acrescentar mais. O citado permite com sobras concluir que estamos diante da velha tentativa de alcançar o divino recusando a graça, ou ao menos subordinando-a ao próprio esforço de conhecer. Tal “conhecimento”, que é incomunicável, torna seu possessor um iniciado. É menos relevante discutir se para os católicos seria útil ou necessário a submissão à guia islâmica, ou se poderíamos encontrar nosso próprio caminho, inclusive nos valendo da “iniciação” sacramental, recusada por Guénon, mas aceita por Schuon. Qualquer conluio com esta gnose resultaria na perversão, não das outras religiões, cujo comércio com o além não seria essencialmente alterado, mas da Religião do Verbo que se fez carne “e habitou entre nós; e vimos a sua glória, glória própria do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo., I, 14).


     Conclusão

     Com habilidade, o articulista passa a impressão de tradicional, descritivo e mesmo reacionário à tentativa de subversão do cristianismo. Os que aderem às suas idéias sofrerão o influxo do falso tradicionalismo de Guénon, mesmo que “retificado” pelo discípulo que se tornou mestre. Ora, a principal correção diz respeito à repulsa da influência islâmica, parecendo voltar-se para as próprias reservas “tradicionais” do catolicismo (que teriam ligação com a suposta tradição primordial única). Assim, a tendência deles poderá ser a de realizar, através dos elementos católicos, interpretados à sua maneira, sua própria busca de “realização espiritual”. E como muitos deles percebem, com razão, a desordem reinante nos ambientes conciliares, poderão voltar-se para fontes mais puras, vale dizer, tenderão a parasitar nossos ambientes, servindo-se de nossas cerimônias e sacramentos. A possibilidade é real, se já não é triste realidade. Cabe a nós defender a verdadeira Religião expondo integralmente a sua doutrina e consequências, valendo-nos também dos estudos de quem já confrontou semelhante problema, descobrindo seu caráter e estratégias. Refiro-me a estudos como os de Epiphanius, J. Meinvielle. E. Couvert e Jean Vaquié, entre outros, nos quais em grande parte baseamos nosso estudo. Tais trabalhos devem ser conhecidos entre nossos fiéis, e sua leitura deveria ser obrigatória para alguns, sobretudo os que se destinam ao sacerdócio.

     “Sem a graça de Deus atuante e acolhida obediencialmente, não apenas nas almas fiéis que estarão em torno do altar até o fim do mundo, mas nas junturas e conexões sociais; sem a presença da Igreja acolhida, aceita; sem as marcas de Cristo-Rei na Cidade temporal, os homens não serão capazes de fazer “uma civilização” e não conseguirão traçar um contraponto, sequer medíocre, de seu tropel coletivo no mundo. Sim _ sem aqueles liames sobrenaturais _ os homens não conseguirão traçar uma história medianamente humana, uma história ao menos decente.  Ao contrário, conseguirão esse prodígio de mistura em que os mais belos atos humanos se entremeiam e se comprometem com uma organizada satanização.” (G. Corção, O Século do Nada, pág.316)

     “(...) digo que aquilo que os gentios sacrificam, sacrificam-no aos demônios e não a Deus. Ora eu não quero que vós tenhais comunhão com os demônios.” (I Cor., X, 20)


[1] - Abel oferece as primícias de seu rebanho, realizando uma imolação, o que era conveniente realizar depois do pecado, para tornar Deus propício. Enquanto que Caim simplesmente oferece uma parte de sua produção agrícola, os “frutos da terra”, o que mais denota simples ação de graças. A atitude revoltada e assassina deste último mostra que não se tratava de alguém disposto a se humilhar diante do Criador.
[2] - No já clássico Maçonnerie et Sectes Secrètes, de Epiphanius vemos, na pág. 418, um cartaz do Conselho Europeu, onde se lê “Europa: Muitas línguas, uma voz”, e na ilustração a construção moderna da Torre de Babel. Os mundialistas admitem assim serem os herdeiros atuais da falsa tradição que quer unir a humanidade contra o Criador.